Desmistificando o Mindfulness: A complexidade do conceito

Este é o maior artigo sobre o que é mindfulness que você vai encontrar. Vamos explorar sua complexidade, mas vamos também mergulhar na simplicidade de sua prática. Não se deixe enganar por essa simplicidade: simples não quer dizer fácil. Inclusive, como diz Sharon Salzberg: “Mindfulness não é difícil, precisamos apenas lembrar de praticá-lo”.

No presente artigo veremos:

No presente artigo veremos:

1. A complexidade do conceito de mindfulness: o que é?

2. É fácil entender errado: os mitos de mindfulness

3. Onde mindfulness pode ser aplicado?

4. Para o que mindfulness serve?

5. Como começar a trabalhar com mindfulness?

1. O que é Mindfulness? A complexidade do conceito

Mindfulness se tornou um conceito multifacetado, isso é, pode significar muita coisa, dependendo do contexto onde está inserido. Saber disso é fundamental para compreender a complexidade de mindfulness e seu campo de atuação nos dias de hoje.

Comecemos então por sua origem. Apesar de ser entendida hoje como uma prática laica (portanto, não acredite num mindfulness cristão ou num mindfulness espírita), a origem de mindfulness é o Budismo. E, apesar de ter sido emprestado como uma prática secular para a medicina e para a psicologia, conhecer essa origem nos ajuda a compreender verdadeiramente o que é mindfulness.

A entender que muitos podem ser seus significados, por exemplo. Mindfulness é uma palavra em inglês para Sati, uma palavra na lingua pali (prima-irmã do sânscrito), que em seu contexto original (no Budismo), significa atenção correta. Vamos contextualizar: Depois de uma absurdamente longa meditação (49 dias, para ser mais precisa), Sidharta Gautama desperta como Buda, e fala sobre um caminho de 8 passos para nos livrar do sofrimento e um desses passos, veja só, é Sati.

Budhi (2001) diz que o próprio Buda tirou o significado original de Sati (que é memória) para se adequar melhor aos seus ensinamentos, o que gerou o significado central de Sati para o Budismo: Consciência Lúcida.

Na década de 70, alguns ocidentais trouxeram o termo para as bandas de cá e, claro, como tudo que sai de um extremo cultural e entra em outro, o termo sofreu algumas alterações importantes. Mindfulness pode ter vários significados em inglês (awaraness, attention e remembering, por exemplo), vários em espanhol (atención desnuda, toma de consciência, presencia alerta, consciencia pura, visión clara e meditación) e em português conhecemos mais usualmente como atenção plena, sendo também utilizado o termo consciência plena.

Até aqui, só mencionamos o significado. Quando entra na conceitualização, a complexidade fica ainda mais interessante. Os estudos científicos sobre mindfulness, inciados na década de 70, teve dois grandes exponentes: Jon Kabat-Zinn e Helen Langer.

Para Kabat-Zinn, professor emérito da renomada MIT ( Massaschusetts Institute of Techology) mindfulness é um tipo de consciência específica, criada quando coloca-se seu foco atencional de maneira intencional, com aceitação e abertura, no fluxo do aqui e agora. Ele sugere que essa consciência pode ser cultivada através de um programa sistemático de 8 semanas, tendo então desenhado e comprovado a eficácia do MBSR (mindfulness-based stress reduction), um protocolo baseado em mindfulness para redução de estresse. A partir dessa perspectiva, mindfulness é um conjunto de técnicas dentro de um protocolo baseado em mindfulness (ou seja, que segue seus fundamentos centrais), para cultivar mindfulness (consciência plena). O mesmo termo, usado de muitas formas distintas.

Por outro lado, Elen Langer, professora de psicologia social da Universidade de Havard (inclusive, a primeira mulher a assumir uma cadeira em Havard – aplausos, por favor), entende mindfulness como o oposto de mindlessness – o oposto de piloto automário. E sugere que práticas informais de consciência no aqui e agora podem ser funcionais para podermos ter uma existencia mais mindful – mais presente e mais cheia de significado, existencialmente falando. Em vez de uma prática meditativa, a definição de Langer coloca a ênfase na adaptabilidade, na flexibilidade cognitiva e na capacidade de considerar diferentes perspectivas.

Esse é apenas o início do cenário de desenvolvimento de mindfulness e encontramos uma diversidade enorme em relação aos significados e aos conceitos de mindfulness. Para ser estudado pela ciência, encontramos uma operacionalização do conceito de mindfulness realizada por Bishop e colaboradores (2004), que considera mindfulness um fenômeno composto por dois componentes: a autorregulação da atenção e a orientação para a experiência. A autorregulação tem como objetivo principal alcançar a capacidade de direcionar a atenção, incluindo a seleção de estímulos concretos. Desta maneira, é possível aumentar consideravelmente o reconhecimento dos eventos mentais no momento em que eles acontecem. De acordo com Campayo e Demarzo (2018), isso pode ser considerado uma habilidade mental que surge exclusivamente quando o indivíduo dirige sua atenção ao momento presente.

O segundo componente, que se trata de uma orientação voltada para a própria experiência, se caracteriza por uma atitude de curiosidade, abertura e aceitação, pois assim aprendemos a não reagir de maneira automática aos estímulos que percebemos momento a momento (Mañas Mañas). Campayo e Demarzo (2018) complementam, afirmando que tais atitudes aumentam nossa capacidade de interpretar a realidade mais “crua” dos fenômenos, nos trazendo a capacidade de reconhecer e nos libertar dos nossos filtros cognitivos – os famosos erros de interpretação.

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2. É fácil entender errado: mitos de Mindfulness

Mindfulness se tornou uma prática amplamente reconhecida e adotada em diversos setores da sociedade. No entanto, sua popularidade também gerou uma série de mitos e equívocos que podem deturpar sua compreensão e aplicação. Abordaremos aqui cinco desses mitos, contrapondo-os com evidências científicas e insights da prática.

Mito 1: Mindfulness é uma Prática Religiosa

Realidade: Muitos associam o Mindfulness ao Budismo ou a outras práticas espirituais orientais. Embora tenha raízes no Budismo, o Mindfulness, como é praticado hoje, é uma técnica secular. Ele foi adaptado e estudado extensivamente em contextos clínicos e acadêmicos, tornando-se uma ferramenta aplicável independentemente de crenças religiosas.

Mito 2: Mindfulness é Igual a Meditação

Realidade: Enquanto a meditação é uma das ferramentas para alcançar o estado de Mindfulness, elas não são sinônimos. O Mindfulness é uma qualidade da atenção que pode ser aplicada a qualquer atividade, desde comer e andar até ouvir música. Meditação é uma prática mais formalizada, frequentemente usada para cultivar essa qualidade de atenção, mas é apenas um caminho entre muitos.

Mito 3: Mindfulness é uma Solução Rápida para Problemas de Saúde Mental

Realidade: A eficácia do Mindfulness em tratar diversas condições de saúde mental, como ansiedade e depressão, é respaldada por evidências científicas. No entanto, ele não é uma “pílula mágica”. A prática requer tempo, esforço e, em casos de condições de saúde mental sérias, deve ser integrada a um tratamento mais amplo, que pode incluir medicamentos e outras formas de terapia.

Mito 4: Praticar Mindfulness Significa Esvaziar a Mente

Realidade: Contrariamente à crença popular, o objetivo do Mindfulness não é esvaziar a mente ou eliminar pensamentos. Em vez disso, o foco está em observar seus pensamentos e sensações sem julgamento. Isso permite uma forma mais saudável de interagir com seus pensamentos, ao invés de tentar suprimi-los.

Mito 5: Mindfulness é uma Moda Passageira

Realidade: Apesar de ter ganho visibilidade recente, principalmente nas duas últimas décadas, o Mindfulness tem raízes milenares. Além disso, sua eficácia é corroborada por uma crescente base de dados científicos. Sua aplicação em campos tão diversos como psicologia, medicina, educação e negócios sugere que ele é mais do que uma tendência passageira.

Desmitificar esses equívocos é essencial para entender a verdadeira essência e o potencial do Mindfulness. Embasado em evidências científicas robustas e séculos de prática e adaptação cultural, o Mindfulness é uma ferramenta profundamente versátil e eficaz para melhorar a qualidade de nossa saúde mental e bem-estar.

3. Onde Mindfulness pode ser aplicado?

Mindfulness possui três aplicações centrais. São elas:

Espiritual. Mindfulness é uma prática laica, mas pode ser utilizada de maneira espiritual dentro do budismo. Para isso, você deve buscar um centro budista. Um monge é a pessoa mais apta para te fornecer ensinamentos sobre essa prática nesta área.

Psicoeducação. Muitas vezes utilizada para melhorar o gerenciamento emocional numa área específica – como estresse, dor crônica, ansiedade, depressão, comportamento alimentar (ensino todos esses programas no curso de formação em mindfulness para psicólogos). Processo de 8 semanas, normalmente realizado por qualquer pessoa que faça um curso de formação na respectiva área de atuação.

Clínica. Dominado por psicólogos ou médicos, onde mindfulness pode ser estudado como uma alternativa para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, como recurso que favorece a cura e o equilíbrio de transtornos físicos e mentais. Pode ser aplicado protocolos específicos (como os de psicoeducação), mas adaptados para cada caso, atingindo o auge da eficácia.

Além dessas três aplicações centrais, ainda podemos falar de mindfulness em diversos âmbitos:

  • Mindfulness em empresas para melhorar o foco, a produtividade e o gerenciamento emocional.
  • Mindfulness em escolas para desenvolver inteligência emocional nos alunos e melhorar o gerenciamento emocional de alunos, professores e equipe técnica.
  • Mindfulness no esporte de alto rendimento, como preparação emocional de atletas e de equipes inteiras.
  • Mindfulness na saúde, como prática integrativa, a ser oferecido para toda comunidade.
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As formas pelas quais ajudamos outras pessoas a entender mindfulness podem gerar transformação

4. Para que serve Mindfulness?

1. Melhoria na Saúde Mental

Evidência Científica : Vários estudos demonstram que a prática regular de Mindfulness pode ser tão eficaz quanto medicamentos antidepressivos na prevenção de recaídas depressivas. Além disso, há evidências robustas de que o Mindfulness pode reduzir sintomas de ansiedade.

2. Aumento da Capacidade de Concentração e Atenção

Evidência Científica : Pesquisas indicam que o Mindfulness pode melhorar a atenção sustentada e a capacidade de concentração. Isso ocorre devido a alterações na estrutura cerebral, particularmente em áreas relacionadas ao foco e à atenção.

3. Controle do Estresse

Evidência Científica : Estudos mostram que programas de Mindfulness podem resultar em uma redução significativa dos níveis de cortisol, do hormônio do estresse.

4. Melhoria na Qualidade de Vida para Portadores de Doenças Crônicas

Evidência Científica : Pacientes com condições como síndrome do intestino irritável e fibromialgia relatando melhora na qualidade de vida após a prática de Mindfulness.

5. Aperfeiçoamento da Inteligência Emocional

Evidência Científica : A capacidade de consideração e gerenciamento de nossas próprias emoções e como dos outros é aprimorada com a prática de Mindfulness, de acordo com diversos estudos na área de psicologia positiva.

6. Estímulo à Criatividade

Evidência Científica : Ao melhorar a atenção e liberar os processos mentais de julgamentos e críticas automáticas, o Mindfulness pode criar um espaço mental que favorece o pensamento criativo.

7. Melhora no Desempenho Acadêmico e Profissional

Evidência Científica : Programas de Mindfulness aplicados em contextos acadêmicos e profissionais mostrados apresentam melhoria no desempenho, na qualidade do trabalho e nas relações interpessoais.

5. Como trabalhar com Mindfulness?

A primeira coisa que você deve fazer para trabalhar com mindfulness é praticar. Seja lá em qual área estiver ou deseja atuar, seu sucesso com o trabalho com mindfulness está diretamente associado com a sua prática pessoal. Uma vez que você tenha estabelecido uma prática pessoal, é hora de procurar um curso de formação.

No Brasil, atualmente, há diversos cursos de formação, a depender do seu objetivo. Se você não for da área da saúde e/ou apenas deseja ser um instrutor de mindfulness, há diferentes centros de formação (Mente Aberta, Centro de Mindfulness). Mas, agora, se você é da área da saúde e deseja construir grandes projetos, dominar plenamente o desenvolvimento da atenção plena, o curso de formação no Centro de Psicologia Positiva e Mindfulness do Paraná é para você. Clique aqui para conhecer mais.

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